Reflexões


Do racismo cordial ao genocídio simbólico

Em setembro de 2012, após a chacina de seis jovens pretos e pardos em Mesquita, na Baixada Fluminense, o jornal “O Globo” (edição de 13.09.2012, p. 18) admitiu em editorial, cujo título era “Está em curso um quase genocídio contra jovens”, que “A ideia de o Brasil ser um país de população de baixa idade está sendo mudada pela própria dinâmica demográfica e também pela força das armas”.

Com o uso do advérbio (quase) o editorial sinalizava que estava realizando, a contragosto, um movimento de aproximação. Na sessão da Câmara na última quarta-feira (15.07.2015), durante a leitura do relatório final da CPI de Homicídios de Jovens Negros e Pobres, o reconhecimento da palavra genocídio se fez com os mesmos constrangimentos e cautelas do editorial de “O Globo”, que omitia também, por supuesto, a cor dos jovens assassinados.

A relatora da CPI, deputada Rosângela Gomes (PRB-RJ), disse que foi bastante questionada nos corredores, a respeito do emprego de termos tais como racismo e genocídio. Termos estes considerados muito fortes pelos sensíveis deputados que a assediavam nos corredores. Quero crer que lhe foi sugerido um pouco menos, o quase da fórmula de “O Globo”.

Até mesmo porque o quase parece definir nossa especificidade histórica, que sempre modificou para menos o que presumivelmente apareceria em sua plenitude em outros países. Sempre tivemos, por essa leitura, menos racismo do que os outros. A atenuação alcançou seu grau máximo com o emprego inusitado do adjetivo “cordial”. Aqui alcançamos a perfeição ideológica, ninguém poderá negar isso, com a expressão “racismo cordial”. O adjetivo não exatamente determina o substantivo, mas o subordina e lhe extrai as entranhas desumanizadoras. Lembro-me das lições de minha infância remota: “o adjetivo modifica o substantivo”. Ah, criança, não queira saber quanto!

Aplicando as mesmas regras de transformação, oriundas de nossas especificidades históricas, a leitura do relatório da CPI da Câmara revelou ao mundo o “genocídio simbólico”!

Antes da votação do relatório, a deputada Mariana Carvalho (PSDB-RO) externou, no que foi seguida por muitos outros companheiros de CPI, as condições de validação do termo genocídio. Em confrontação com sua dimensão real e material (“muito forte”), o temo genocídio se atenuava ali e adquiria uma conotação “simbólica”, e era essa dimensão que ela e seus colegas se predispunham a aprovar.

Redimido pelo adjetivo, o substantivo genocídio acabou causando menos frisson que “gênero” e “orientação sexual”, varridos inapelavelmente do relatório. Na barganha, a homofobia de pastores, delegados e militares, alarmada ao extremo, acabou dando passagem ao “genocídio simbólico”, considerado um mal menor.

A leitura do relatório firmou também, ao que parece, nossa disposição de prolongarmos indefinidamente a busca por arranjos institucionais, supostamente indispensáveis para por fim ao assassinato de jovens negros. Nesse debate, inclinamo-nos a perseguir o infinito. No entanto, projeções de PEC”s, comissões e fundos não conseguem mais nem mesmo criar um horizonte de expectativas, ainda que rebaixadas.

Sobre o alcance dos pronunciamentos e debates travados no interior da comissão, mais uma vez os meios de comunicação se defrontaram com questões que afetam diretamente a população negra e fizeram suas opções. Nenhum veículo da grande mídia noticiou os trabalhos da CPI, nem as conclusões de seu relatório.

Compare a reação da mídia norte-americana aos eventos recentes envolvendo o assassinato de pessoas negras e seu repúdio pelas comunidades. Analise e compare também o impacto, o espaço e o prestígio do espaço ocupado pelo noticiário desses mesmos eventos e reações na mídia brasileira. Até o “Jornal Nacional” produz manchetes nas quais policiais atiram em pessoas negras. Nos Estados Unidos, claro.

Veículos que, por decisão de seus proprietários e editores, não aceitam noticiar a cor da vítima no Brasil, o fazem, contudo, na primeira página se o fato ocorreu em um país caracterizado como racista, em oposição ao nosso, reino de bem-aventurança etnicorracial. O editorial da Folha de S. Paulo (“Amarildo, 43”, em 03/08/2013) que se referiu a Amarildo, trucidado no Rio, é um clássico no gênero. Amarildo, para a Folha, era ajudante de pedreiro e tinha quarenta e três anos. Sua cor não era uma variável a ser levada em consideração, assim como sua extensa rede de familiares no morro, etc.

A questão central no tema do enfrentamento ao racismo e no fim das práticas homicidas contra a população negra foi, de todo modo, escamoteada ou subdimensionada na apresentação do relatório da CPI. A questão é: uma população ameaçada em sua continuidade pode reverter a tendência de extermínio sem tomar parte nas decisões que afetam sua vida de modo tão trágico e decisivo? Sem o fortalecimento de sua organização política, sem o empoderamento de suas comunidades?

Quais as medidas concretas sugeridas no relatório da CPI para estimular a participação da população negra? Reconhecemos suas entidades e instituições, suas pautas reivindicativas, fortalecemos as estruturas comunitárias com participação negra?

Se as soluções propostas não contarem efetivamente com a participação da população negra desde seu nascedouro, o extermínio começa nesse ato primeiro de exclusão política. Mal ou bem intencionado, não importa, ninguém deve ser porta-voz nem arrogar-se o papel de testemunha das atuais condições de sobrevivência da população negra. Assim, com essa usurpação rotineira, tanto à esquerda quanto à direita, nossa presença histórica transforma-se numa farsa e não há perspectivas de mudança nas estruturas de poder, das quais os negros são sumariamente excluídos. Há, portanto, evidências indiscutíveis, finalizado o trabalho da CPI, de que os assassinatos continuarão a acontecer impunemente em todo o país.

Edson Lopes Cardoso.
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo.



Começará em casa, se for verdadeira

Na edição do Jornal Nacional, rede Globo, da última sexta-feira (03.07.2015), William Bonner e Renata Vasconcelos informaram sobre agressões racistas que visaram a apresentadora do tempo, Maria Júlia Coutinho.

Bonner relatou que “cerca de 50 criminosos publicaram comentários racistas de maneira coordenada”, na própria página do JN. A data escolhida pelos agressores, uma daquelas surpresas escondidas no calendário de eventos, é o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial.

Para quem não é precavido, como eu não sou, um dia inesperado que, segundo consta em alguns espaços na internet, alude à legislação revogada pela Constituição de 1988 e trata-se de uma homenagem a Afonso Arinos!

Lembrei-me de Perelman: “É porque uma moeda está em circulação e possui um valor que se dão ao trabalho de fabricar moeda falsa”.

Embora o JN seja sempre suspeito para nós de urdir artifícios e enganos, o relato dos apresentadores soa verossímil: milhares de protestos vindos de todo o país, reações do Ministério Público no Rio, “que pediu à promotoria de Investigação Penal que acompanhe o caso com rigor”; em São Paulo, um promotor criminal “instaurou inquérito para apurar os crimes de racismo e injúria qualificada”.

Bonner informou ainda que a própria rede Globo “está estudando as medidas judiciais cabíveis”. A coisa está tão redonda que pode não levar a nada, você me entende? E pode apenas reforçar a argumentação dos que tratam o racismo como uma atitude “socialmente constrangedora”, sem maiores consequências. E pode sair daí um “caso exemplar”, comandado pela rede Globo? Um álibi extraordinariamente poderoso que o réu erguerá, doravante, diante de todos aqueles que o acusam?

Se o fantasma da lei Afonso Arinos fez uma aparição no calendário de lutas, o que mais não será possível nesse grande casarão mal-assombrado em que se transformou o país?

E Maria Júlia? Nós pudemos ouvi-la, instada por Bonner, na mesma edição do JN. E gostei da fala, contribuiu para vencer resistências e afastar a impressão de fingimento, de artifícios promotores de audiência. Num ambiente em que se procura, invariavelmente, suprimir qualquer referência positiva ao ativismo de Movimento Negro, Maria Júlia Coutinho fez rápida alusão ao perfil militante de seus pais. Eles lhe transmitiram orientações positivas no sentido de fortalecer a consciência de seus direitos:

Muita gente imaginou que eu estaria chorando pelos corredores, mas na verdade é o seguinte, gente: eu já lido com essa questão do preconceito desde que eu me entendo por gente. Claro que eu fico muito indignada, fico triste com isso, mas eu não esmoreço, não perco o ânimo, que eu acho que é isso que é o mais importante. Eu cresci numa família muito consciente, de pais militantes, que sempre me orientaram. Eu sei dos meus direitos. Acho importante, claro, essas medidas legais serem tomadas, até para evitar novos ataques a mim e a outras pessoas.



Tudo já era perceptível desde o início. Aqui estamos a léguas de distância das erupções efêmeras das “redes sociais”. A sua percepção de si mesma se fez em um mundo no qual se colocava a questão do preconceito. Tratar com ela, ocupar-se dela significa enfrentá-la e combatê-la desde sempre, sem esmorecer nem perder o ânimo.

Ela se fortaleceu no ambiente familiar, não em frente da TV, está claro isso. A “questão do preconceito” é, evidentemente, o modo como sou visto pelos outros. A questão do preconceito contra os negros envolve ataques e agressões diárias. A grade de programação das televisões, uma manifestação inequívoca de negação e rejeição, não contribuiu para fortalecer Maria Júlia..

Toda campanha antirracista é bem- vinda. Mas uma campanha conduzida pela Rede Globo não poderá, num passe de mágica, apagar a compreensão de que as virtudes da campanha serão avaliadas por sua aplicabilidade ao universo da própria Rede Globo.

Edson Lopes Cardoso.
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo.



O lenço

a Ângela Gomes

Carolina Nabuco, filha de Joaquim Nabuco, é autora de Oito Décadas, um livro de memórias, editado pela José Olympio em 1973.

Na primeira parte, que corresponde aos seus dez primeiros anos, de 1890 a 1900, a autora refere-se a uma ex-escrava, envelhecida, que continuou residindo em Maricá, no Rio de Janeiro, após a abolição, quando a fazenda que pertencia a seu avô materno, José Antônio Soares Ribeiro, Barão de Inohan, entrara em decadência.

O nome da ex-escrava é Henriqueta e deixemos falar Carolina:

Ela fora, nos tempos da escravatura, responsável pela enfermaria da senzala e pelo tratamento dos escravos doentes ou acidentados. Antes de receber esta incumbência esteve, moça ainda, mandada por seus senhores para ganhar prática, num hospital no Rio. Ouvi contar dela (e esse feito despertou-me ilimitada admiração) que salvara a vida de um homem estripado por um touro. Recolocara-lhe os intestinos, após lavá-los num córrego próximo, e recosera-lhe o ventre conforme as regras da cirurgia. Era uma preta alta e magra com um ar de respeitabilidade que as outras velhas não tinham, talvez por causa do lenço que trazia amarrado à cabeça, salvando-a do desmazelo dos cabelos selvagens ou encarapinhados das demais moradoras da ‘rua’ (chamavam assim à antiga rua da senzala). Henriqueta era mulher realizada pela vocação médica que era sua. Continuava ativa, servindo a vizinhança como parteira, doutora e distribuidora de ervas aptas às curas.



Antes de assumir a responsabilidade de cuidar de escravos doentes e acidentados, Henriqueta foi mandada a um hospital para treinamento. Não sabemos se as coisas se passaram exatamente nessa ordem, provavelmente não. O relato de um de seus feitos que chegara a Carolina beira o fantástico, mas atesta que o treinamento foi efetivamente assimilado (“conforme as regras da cirurgia”). Habilidade, conhecimento, atitude, iniciativa pessoal.

A narração de Carolina faz alusão a uma vocação médica, no exercício da qual Henriqueta se realiza. Há saberes adquiridos por Henriqueta, mais formalizados, de que Carolina conhece seguramente a fonte. Outros, ela intui vagamente e sua dimensão mais concreta aparece relacionada ao conhecimento de “ervas aptas à cura”. A escolha de Henriqueta para as funções que desempenha exclui a comunidade desde o início do relato, o que parece muito pouco provável.

Aqui temos uma brecha para percebermos que Carolina pode ignorar muito sobre Henriqueta, seus saberes e suas habilidades, e sobre as fontes de sua respeitabilidade. “Talvez por causa do lenço...”, pensa Carolina.

A origem da respeitabilidade de Henriqueta, de seu reconhecimento na comunidade, quando associada ao lenço que lhe cobre os cabelos pode soar pueril à primeira vista. No entanto, precisamos atentar para o uso no texto do verbo “salvar”.

Em sua primeira ocorrência, Henriqueta “salva” o homem que fora estripado pelo touro. Na segunda, Henriqueta “foi salva” pelo uso do lenço de parecer selvagem e desmazelada como outras mulheres da rua da senzala.

O alcance social, na visão de Carolina, do fato de Henriqueta esconder os cabelos “selvagens” é imenso, equiparável, em sua eficácia simbólica, ao gesto salvador de uma vida e que lhe provocara tanta admiração.

Carolina percebe assim que a cabeça coberta de Henriqueta significa algo relevante, mas inventa-lhe uma justificativa, moldada por seus próprios preconceitos. Mas, podemos conjeturar, ao contrário do que pensa Carolina, Henriqueta cobre a cabeça obedecendo a códigos e significados ritualísticos e/ou religiosos dentro de seu universo cultural? O lenço pode significar a existência de determinados procedimentos de iniciação por que passou Henriqueta, reconhecidos e legitimados pelos moradores da rua da senzala? Não sabemos. Entretanto, é seguro que Carolina lê o gesto dentro dos significados estritos que lhe dita o preconceito.

Deixamos falar Carolina, mas não podemos deixar falar Henriqueta. Podemos compartilhar a memória de Carolina, mas um silêncio recobre em nossa história pessoas, experiências, memórias. Um silêncio que desafia nossa própria sobrevivência. Não sobrevive um coletivo impedido de compartilhar sua própria experiência - a qual simplificada, distorcida, se transforma em alguma coisa completamente diferente: “Talvez por causa do lenço...”.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo



"Menino-Homem"

Quero me ocupar das tuas inconsequências de menino arrogante

Dessa tua pretensão de ser inabalável

Te salvar da tua estupidez de trocar os estudos, pela pelada do fim da tarde

Quero conter essas urgências que te fazem roçar seu corpo nessa sua namorada tão sedenta quanto tu

Evitar ladainhas de crianças e títulos de avó que não me convêm

Mas hoje, comprando as velas que sopras amanhã, essas preocupações me soam como privilégio que não tenho

Seu corpo franzino de menino preto começa a ser transformado pelos hormônios e não posso evitar o que está por vir

A identidade registra 16 em poucas horas e me dizem que seu tempo está chegando ao fim..

Eu que já rezo para que as balas não atinjam seu corpo, para que as desavenças não te cruzem os caminhos, para que as fardas não te surpreendam numa emboscada qualquer, agora me ajoelho para que não te enjaulem antes da vida te dar uma chance de amadurecer, de errar, de se redimir

A verdade é que crescer é atividade de risco
A tarefa é: ser salvos de nós mesmos
Mas com seu titulo de menino revogado
A vida deixa de ser jornada pra se tornar sina

Sina que renova em ti, as angústias do passado
Com sons de navios, de correntes, de chibatas
Sina que renova em mim, as misérias das lembranças
De filhos roubados, separados, mutilados
Sina que impõe a nós, a guerra como a única saída
Por liberdade, por justiça, por amor


Por Ana Flauzina



Crédito: Friedemann Vogel/Getty Image

"Cala-te : quem reage, dança"

Ginástica mental. Uma operação complicada para o jovem ginasta: a aceitação pragmática da negação desumanizadora. Ângelo tinha que pensar, numa fração de segundo, que o filho do treinador (Marcos Goto) era parte do grupo e que sua carreira muito provavelmente dependia da reação à agressão racista. Quem reage, recebe o que Aranha, ex-goleiro do Santos, recebeu, todos sabem.

De um lado, o corpo negro do ginasta, de outro os sacos de lixo. Ou melhor, de um lado os corpos brancos dos ginastas, divertindo-se, e de outro o saco de lixo, Ângelo Assumpção.

Lixo, lixão, corpos negros, sacos de lixo – você não precisa estar ligado na CPI do extermínio de jovens negros para perceber que o corpo de Ângelo Assumpção acaba de ser lançado simbolicamente na vala, no lixão.

A ligação simbólica, nós aprendemos, se apoia na estrutura do real. As imagens e os símbolos da rejeição se interpenetram, cruzam-se e precisamos estar atentos aos significados do simbolismo que envolve a comparação feita pelos atletas da seleção brasileira de ginástica. Lugar de negro, principalmente na faixa etária de Ângelo Assumpção, é no lixão. Risos?

A mãe de Ângelo parece que falou alguma coisa. Ângelo não vai falar. Pelo menos, não o que nos interessa. Artur Nory, Felipe Arakawa e Henrique Flores já se desculparam pela “brincadeira”. Na dita brincadeira, os ginastas brancos reafirmaram sua superioridade diante de Ângelo e deixaram claro, também, através da linguagem e das atitudes, que Ângelo representa outro grupo, o do lixo. Procura sua turma, cai fora.

Entre nós é profunda a crença de que a discussão aberta e explícita do racismo deve ser evitada. Constrange e parece não promover avanços nem instituir novas práticas. O fato é que temos, de um lado, a “maldição da cor” e, de outro, temos esforços bem sucedidos para interditar o debate sobre racismo. Na rádio CBN, o bate-papo sobre racismo na seleção brasileira de ginástica olímpica (21.05.2015, programa “Hora de expediente”) levou um pouco mais de dois minutos e camuflou a palavra maldita.

Dan Stulbach referiu-se uma vez ao termo na expressão “...quanto está naturalizado este tipo de racismo na sociedade brasileira, tratado como brincadeira”. Naturalização nesse contexto significa que eventuais penas devem ser atenuadas. O racismo é apresentado como elemento da vida cotidiana – mas para inocentar as pessoas que discriminam. As práticas discriminatórias não seriam percebidas como violência extrema, porque passariam longe da consciência dos autores, pobres vítimas inocentes da “naturalização”. Há cinismo e astúcia na manobra.

No país que fuzila jovens negros sem piedade, as considerações de jornalistas sobre atos de discriminação racial e incitamento ao racismo praticados por jovens brancos (“meninos”, “rapazes”) valorizam a chamada pena “didática”, que seja “um exemplo para que não se repita mais”. Os rapazes vão ficar sem a merenda durante trinta dias.

E Ângelo Assumpção? Milton Jung da CBN disse que “muitas vezes o alvo das críticas acaba não reclamando, porque o fato de ele reclamar ou reagir contrariamente pode gerar uma exclusão daquele ambiente, e quando naquele ambiente a oportunidade que o esporte oferece é a de uma ascensão, etc., de um sonho que você realiza, e você acaba aceitando isso, não reagindo da maneira como você deveria talvez. Mas realmente é muito complexo esse processo”.
Que “ambiente” esse, francamente. Releiam o que disse o Jung: críticas. Ângelo teria sido alvo de “críticas”. Na hipótese de reação, o tal “ambiente” fatalmente o excluirá. O que é exatamente complexo no processo? Que Ângelo não possa suportar a grande pressão do ambiente racista? A desumanização, a coisificação, a negação de suas possibilidades como atleta? O desafio gigantesco de alcançar êxito, numa sociedade cujos processos de dominação destinam-se a negar, manipular, conter e reprimir seu corpo?

Os atletas brancos foram punidos “didaticamente”. O modo como se divertem, o comportamento do grupo, comunica mais que indícios de que se sentem seguros de que compartilham valores e práticas: “outros pensam e agem como nós”.

Uma resistência furiosa com a divulgação do episódio, profundamente contrariada, produz o silêncio e a imobilidade. Os personagens foram todos blindados, o noticiário se esvaziou rapidamente. Silêncio, silêncio, silêncio. Ângelo Assumpção, não sei não, pode estar encerrando uma promissora carreira.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo




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