Reflexões


O MEDO QUE VALE OURO

O ritmo está acelerado. Dormir é ter certeza de amanhecer num futuro que sonha em acordar no passado. Nessa ambiência, há uma chuva mal encontrada de palavras e imagens que projetam o caos como o dado a ser controlado. A figura do “Mercado”, que antes manipulava os movimentos do tabuleiro com discrição, passa a comandar todo e qualquer argumento da discussão política. O governo explicita seu papel de sócio maior dos arranjos econômicos e trabalha para entregar lucros fáceis e garantir consciências tranquilas.

Para sustentar a ordem numa manobra tão brusca, é preciso acionar a violência sem maiores reticências. Publicizar a repressão como um dado natural e necessário é, portanto, retórica essencial para justificar os desmandos. Na disputa acirrada das elites, a corrupção é acionada como a categoria que seleciona os grupos politicos a serem afastados do poder. Aqui, os ares sóbrios usam a verborragia jurídica para deformar a constituição, punir indivíduos exemplarmente e deixar as estruturas intactas.

Mas acenar com medidas para a “calmaria” dos agentes econômicos não é suficiente. O desmonte das políticas públicas de base, a retirada de direitos de trabalhadores, a privatização de estatais estratégicas e tantos outros vilipêndios que se avolumam, demandam um tipo de adesão social profunda. A propaganda que legitima e sustenta o golpe, fica evidente, está ancorada no racismo.

O espetáculo da intervenção militar no Rio demonstra que o apetite social por carne negra é o grande combustível que libera o engavetamento dos parâmetros jurídicos. No controle do alardeado caos, pode-se finalmente soltar o grito engasgado na garganta e explicitar o reclame por morte sem constrangimentos.

O exército cobra cachê elevado para participar da encenação, mas a popularidade das ações anunciadas faz valer a pena o desembolso da verba. Querem as garantias para os massacres sem meias palavras. Invasão de domicilio, abuso de autoridade e homicídio fazem parte do pacote encomendado. Prometem serviço limpo e, em troca, exigem passe livre e imunidade absoluta. Afinal, se o gozo é coletivo, não há porque ficar isolado no banco dos réus da história. Desse veneno não topam provar novamente.

Nessa equação estreita, o governo entende que o contraponto das medidas “impopulares” é a autorização do linchamento a céu aberto. Pouco importam as montanhas de dados, fatos e análises que sinalizam que a eficiência do sistema de justiça criminal passa por estratégias opostas ao que está sendo proposto. Afinal, no Brasil, o sufocamento da população negra é remédio poderoso para amenizar ansiedades.

O ataque é então autorizado com a inversão do ônus político e social que levaram a esse estado de coisas. Foram os desmandos do governo local que levaram o Rio à mendicância institucional para o pagamento de salários; a viabilização de serviços públicos básicos e a manutenção da máquina pública. Agora é contra a parcela da população que mais sofreu com o desgoverno que se abrem as artilharias do extermínio.

Trata-se do reconhecimento inequívoco do alcance da propaganda punitivista do racismo. Se os arranjos que beneficiam grupos econômicos são feitos de meias palavras, de negociatas pouco acessíveis, de reformas com parágrafos complexos, é preciso ter uma plataforma que traduza de forma simples e direta as “ações positivas do governo”. A verdade é que o derramamento de sangue dessa massa favelada pintada como disforme e criminosa, resguarda, fortalece e credencia um governo sedento de legitimidade. O medo de gente preta vale ouro e está sendo usado como o grande trunfo para o avanço do conservadorismo no país.


Ana Flauzina é professora da Faculdade de Educação da UFBA



O SR. CABEÇA CONFUSA TEM AS RESPOSTAS

O Sr. José Medrado, mestre em Família pela Ucsal, faz jus ao nome pelo qual passo a designá-lo nesta coluna: Sr. Cabeça Confusa. No mesmo artigo (A Tarde, 17/01/2018, p. A3), ele se posiciona em defesa da liberdade religiosa e contra a intolerância, critica a hipocrisia dos políticos e a omissão do ministério público, e, para coroar seu texto em defesa dos oprimidos, declara-se paradoxalmente tributário do racismo.

O Sr. Cabeça Confusa propõe-se a responder a seguinte questão: “...quem é mesmo o povo de santo?”. Ele quer saber quem são de fato, de verdade, realmente, as pessoas designadas pela expressão “povo de santo”.

É razoável que um paladino, que luta em defesa de causas justas, interrogue-se sobre, afinal, quem é mesmo essa gente? Leiam a resposta que o Sr. Cabeça Confusa dá a suas preocupações:

“Uma minoria que, em geral, não aprendeu a exigir seus direitos e ainda, infelizmente, se embeleza para foto com políticos oportunistas. Guardam no inconsciente coletivo de sua descendência de pessoas que foram escravizadas a reverência, o abaixar a cabeça aos senhores da Casa Grande.”

Lembram da “marca no lombo” do Mino Carta? O Sr. Cabeça Confusa, não tenho dúvida, bebeu nas mesmas fontes da turma de CartaCapital. O povo de santo, que luta há séculos no Brasil para assegurar um espaço legítimo no qual possa continuar a expressar suas crenças e valores, é definido como o que não aprendeu a exigir seus direitos. Desculpe-me Sr. Cabeça Confusa, poupe-nos tempo e ensine a esse povo estúpido como deve proceder na defesa de seus legítimos interesses.

Antes, devemos indagar, diante das circunstâncias expostas pelo articulista, se é possível projetar uma aprendizagem, qualquer uma, para essa gente? Vejam, a dúvida é pertinente. Não cabem ilusões aqui. O Sr. Cabeça Confusa sabe, porque está no Aurélio, que o inconsciente coletivo guarda “ideias inatas”. Remotamente, a origem dessas ideias foi a escravidão. Após a escravidão, elas passaram a brotar independente da experiência. Estão lá, guardadas no inconsciente coletivo, e ponto final.

Prostrar-se diante da Casa Grande é, hoje, uma tendência inata entre descendentes de africanos escravizados, assim nos ensina o Sr. Cabeça Confusa, que estabelece uma hierarquia bastante objetiva com suas observações de paladino dos direitos humanos. Como ele sugere, o grande impasse no tema da intolerância reside nos grupos discriminados.

Creio que as argumentações e as inferências tornadas públicas pelo Sr. Cabeça Confusa podem vir a ser decisivas na superação da intolerância religiosa. Primeiro temos que admitir, como o faz abertamente nosso paladino, que ela é em grande parte um produto da incapacidade negra de exigir seus direitos.

Sendo assim, chegou a hora de dispensar esse pessoal cuja subjetividade é orientada para a vassalagem e de buscar favorecer um processo que possa melhor se ajustar às expectativas disseminadas pelo artigo do Sr. Cabeça Confusa.

As diferenças parecem tão significativas que não devemos ter medo de dizer com todas as letras: é chegada a hora de dispensar o povo preto de qualquer responsabilidade nas roças e nos terreiros – e nos tribunais.

É evidente que há um conteúdo preestabelecido na argumentação do Sr. Cabeça Confusa: a convicção de que os brancos sabem exigir seus direitos, não baixam a cabeça, não se deixam fotografar sorridentes junto a tiranos e demagogos, nem reverenciam o poder.

Se entendi bem a mensagem, precisamos dar uma outra qualidade ao povo de santo, se queremos enfrentar adequadamente a intolerância religiosa. A resposta à questão “quem é mesmo o povo de santo?” vai passar (ou está passando?) por profundas alterações.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




NADA MUDOU, VAMOS MUDAR?

Em 21 de março de 1988, discurso do presidente Sarney abria oficialmente as comemorações do Centenário da Abolição. Creio mesmo que tenha sido a primeira alusão histórica, no palácio do Planalto, “à militância dos movimentos negros”.

Na Câmara dos Deputados, desde 1984, Abdias do Nascimento já havia sido porta-voz da reação à comissão de “figuras notáveis”, articuladas pelo ministro da Justiça, Abi-Ackel, e presidida por Dom Pedro Gastão de Orleans e Bragança.

Abdias, preocupado com a ausência de negros e a presença de notáveis meramente decorativos, indagava da tribuna da Câmara: “a Comissão vai comemorar a libertação dos escravos, ou comemorar a instituição escravocrata?”

A coisa começou mal e depois desandou de vez. O discurso de Sarney, com apelos ao congraçamento, à unidade e à integração, recheado de afirmações bem eloquentes sobre “nossa democracia racial”, mordia e assoprava, acautelando-se diante da onda de protestos que se avolumava:

“Não cabe ao Estado brasileiro conduzir as comemorações do Centenário da Abolição da Escravatura como se detivesse ele a chave de interpretação da nossa história.”

O Estado, lembrava Sarney, é o dono da chave do cofre e vai apoiar as iniciativas da sociedade e da militância: “E por isso estou abrindo um crédito especial para as comemorações”.

Sarney acenou com algum dinheiro e “espaço institucional”, anunciou a criação de uma Fundação, “que se chamará de Fundação Palmares” ( ardilosamente encostaram por um breve momento a princesa Isabel) e vaticinou que essa fundação apoiaria “as inteligências, as lideranças e as consciências que se formarem na raça negra no Brasil para que, dentro de poucos anos, nós tenhamos formado no país um contingente (...) que possa atuar em todos os setores (...).”

Agora que o jogo acabou, decorridos trinta anos, ninguém nem sabe o nome do atual presidente da Fundação Palmares, nem imagina que ele tenha atuação relevante em “algum setor” da vida nacional. Em 1988, Sarney propunha um pacto, diante das evidências nacionais do protesto negro. Toma lá, dá cá.

“É assim que desejamos que a abolição seja comemorada. Com uma prestação de contas na ordem da comunhão humana. E com um avanço a mais na ordem das altas decisões históricas. Fraternalmente. Como deve ser. Lado a lado. De mãos dadas, com os olhos no futuro.”

As forças que propunham o pacto sem nenhum futuro tinham tido o cuidado de neutralizar a proposta de Abdias que, desde 1983, queria instalar uma Comissão do Negro na Câmara dos Deputados. Abdias não pensava apenas nos cinco primeiros meses de 1988, mas mirava “a década do centenário da abolição da escravatura”, outra coisa bem diferente. A Comissão do Ministério da Justiça, de 1984, visava confrontar essa iniciativa.

A Comissão do Negro defendida por Abdias queria meter o bedelho em “todos os assuntos relacionados ao negro” e se propunha a “receber e investigar denúncias de atentados aos direitos humanos e civis dos brasileiros de ascendência africana” e “propor medidas legislativas atinentes ao resgate da história, respeito à identidade étnica e cultural, interesses da educação, treinamento profissional, emprego, segurança, moradia e saúde das populações negras no Brasil”.

A proposta de Comissão do Negro vai estacionar e morrer na Mesa da Câmara. Os fiadores do pacto explícito apresentado por Sarney foram o ministro da Cultura, Celso Furtado, e Carlos Moura, “um dos líderes mais dinâmicos da comunidade negra” (sic), ambos citados no discurso presidencial.

Na retaguarda de Sarney estava o general que chefiava o Centro de Comunicação Social do Exército, o qual vinha alertando para graves sinais de perturbações da lei e da ordem, em especial uma muito temida “releitura da história”, agitada por baderneiros e baderneiras de um Movimento Negro que não faltaria, por dinheiro nenhum, a seus compromissos e recusaria todas as restrições impostas de fora.

Foi um momento inesquecível, vocês nem queiram saber.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




O QUE ME INTRIGA...

Quando nos debruçamos sobre a realidade contemporânea no que diz respeito à denúncia de casos de discriminação racial e racismo nos deparamos, às vezes, com fatos aparentemente desconexos. Pode ilustrar isso o comunicado da Rede Globo divulgado ontem (22.12.2017), assinado por seu diretor de jornalismo, Ali Kamel, e pelo jornalista William Waac.

Ambos reiteram seu repúdio ao racismo, apresentado como um “sentimento abjeto”. Waack desculpa-se por eventuais ofensas, é elogiado pelos serviços prestados à empresa e o caminho escolhido consensualmente pelas partes foi o encerramento do contrato de trabalho.

O que nos diz de fato o comunicado? O que levou ao rompimento do contrato entre o profissional reputado como de primeira linha, avesso ao racismo, e a empresa que se define visceralmente antirracista?

Ao formalizarem o rompimento, acentuaram que partilham na essência os mesmos valores. A negação do racismo se faz costumeiramente entre nós por meio de autodeclarações enfáticas e dissociadas da “prática” de atos concretos.

Os parceiros ficaram nesse nível de generalidades e não dedicaram mais que uma vaga alusão ao episódio de bastidor, um comentário racista, que teria gerado, quando divulgado com atraso, a pressão das redes sociais.

É certo que mais detalhes, mais minúcias sobre o episódio fortaleceriam sua verossimilhança. Parece que quanto mais distância do fato concreto, melhor para as partes. Há alusão a uma vaga ofensa no comunicado, pedem-se desculpas, mas quem são os ofendidos?

A atribuição de negatividades e limites às pessoas negras, como dimensão de sua constituição genética, atinge a todos e as pessoas atingidas têm o direito de processar o agressor e de não ficarem satisfeitas nem com sua demissão nem com o jogo sutil da empresa de afirmar ser o antirracismo parte de suas “vísceras”.

A meu ver, para desestimular o uso de instrumentos coletivos de defesa de direitos, o comunicado de ontem e a nota anterior enfatizam os “valores” e “os princípios”. Embora um fato tenha motivado a demissão do jornalista, o fato importa pouco.

Não se pode, contudo, negar a evidência do desligamento súbito de um jornalista que supúnhamos surfando na crista da onda conservadora mais alta. Conhecemos realmente todos os fatos que envolvem esse episódio? A principal razão do desligamento foi realmente o vídeo só agora exumado?

No admirável mundo novo em que vivemos, a revista “Veja” é a favor das cotas, o Estadão faz circular, em coluna de jornalista especializada em direito internacional, a expressão “genocídio negro” do modo que o movimento social gostaria que fosse usada, e a rede Globo declara-se visceralmente antirracista, seja lá o que isso signifique de fato.

Há profunda contradição entre a ausência ou sub-representação de grupos humanos inferiorizados pelo racismo na programação da emissora e a sistemática negação de que tal realidade seja decorrência natural de hierarquizações racistas.

Essa ausência ou sub-representação são fundamentais para compreendermos o alto nível de abstração de declarações de tipos como Kamel e Waack. Suas afirmações grandiloquentes não incluem, portanto, a realidade concreta da programação. Não só, sinto que algo nos escapa aí. Mas no admirável mundo novo não temos o direito de supor nada e alguns funcionários negros têm motivos pessoais para legitimarem essas abstrações. E fizeram também seu trabalho com eficiência.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




Um artigo, uma esperança

Li e recomendo bom artigo da jornalista Bruna Ribeiro no Estadão http://emais.estadao.com.br/blogs/bruna-ribeiro/racismo-institucional-criancas-jovens-negros/. Acho importante atentarmos para a superação de limites no entendimento da realidade da expressão “genocídio negro”, que finalmente vai ganhando circulação fora do meio de ativistas de movimentos negros.

Uma atualização da linguagem jornalística que, a se confirmar, tem evidentemente implicações profundas. A ética da representação jornalística estaria sofrendo abalos entre nós, no que diz respeito às reais condições de vida da população negra?

Falo ética porque não se tratava evidentemente de uma questão de ignorância, pura e simplesmente. Todos sabiam o que faziam, o que escondiam e escondem no noticiário. O silêncio dos meios de comunicação sempre funcionou como uma autorização de prestígio, não tem inocente nessa história de barbárie.

O título do artigo de Bruna Ribeiro é “O impacto do racismo institucional na vida de crianças e jovens negros”, e ele vem encimado pela rubrica “genocídio negro”, uma indicação pertinente que foge à abordagem enviesada tradicional em nossas mídias.

O bicho está pegando, penso logo que boto o olho no artigo, que foi escrito em condições tais que permitiram mobilizar um conhecimento da realidade social e econômica dessa população que é normalmente desprezado pelos jornais.

Uma tarefa nada fácil, como se fôssemos restituir uma cor a cadáveres ao longo de décadas passadas, exumando os corpos dos arquivos dos próprios jornais. Uma espécie de iluminação retrospectiva. A realidade macabra criada por uma negação sistemática – o negacionismo, que colocou os assassinos sempre em um lugar de prestígio e ocultou as vítimas.

Seria bom que o artigo de Bruna Ribeiro sinalizasse uma ruptura com esse quadro. No momento em que brotam nas ruas sementes do autoritarismo e do fascismo seu artigo é um sinal da resistência possível à lógica do aniquilamento em que submergem jornais e jornalistas.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




TUDO É SIMULAÇÃO, INCLUSIVE AS VÍSCERAS

"A Globo é visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações. Nenhuma circunstância pode servir de atenuante.” Este é o trecho de abertura da nota da Rede Globo divulgada esta semana sobre o afastamento do jornalista William Waack. O antirracismo, afirmado enfaticamente, é assim parte da natureza íntima da instituição, integra seu modo de ser.

O que é especialmente relevante é que se trata de uma empresa de comunicação que, segundo nos informam diariamente, alcança 100 milhões de brasileiros com uma programação orientada por inquestionáveis princípios éticos. Sim, é de ética que estamos falando. Como dizem os estudiosos do tema, “a dimensão ética começa quando entra em cena o outro”.

E o outro a que nos referimos (por exemplo, negros e índios) entra em cena toda hora na programação antirracista da rede Globo, sem o que, evidentemente, não poderíamos compreender quem somos. Ninguém apreende melhor, portanto, essa verdade do antirracismo visceral da rede Globo do que seus telespectadores não-brancos em todo o território nacional.

Trata-se aqui, perdoem-me a insistência, este é um ponto fundamental, não de seguir regras e regulamentos, mas de obediência ao modo de ser da instituição, o que lhe deu sempre vantagens estratégicas e a possibilidade de acumular prêmios internacionais.

Assim, por exemplo, a empresa, que segue imperativos éticos ditados por sua própria natureza, pode dar-se ao luxo de ignorar o pluralismo inscrito na Constituição e o Estatuto da Igualdade Racial.

Agora, vamos considerar que os negros são muito lentos, umas tartarugas. A rede Globo é de 1965 e somente em 2002, trinta e sete anos depois, portanto, um negro chegou à bancada do Jornal Nacional.

Vejam bem, mesmo considerando a existência de uma singular precondição, que é o fato de um empregador essencialmente antirracista, Heraldo Pereira chegou à bancada do Jornal Nacional somente em 2002. Decorridos quinze anos, continua suplente, cobrindo sábados e outros buracos na escala.

É isso mesmo. Como a empresa é visceralmente antirracista, a culpa só pode ser de Heraldo e tantos outros assemelhados, que não se mostram capazes de aproveitar as inúmeras oportunidades colocadas a sua disposição.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




Afinal, tudo se contorna

Renê Júnior, atleta do E. C. Bahia, foi chamado de macaco numa discussão com um adversário no Ba-Vi do último domingo. Houve algum rumor na imprensa esportiva após o jogo, um comentário ligeiro do árbitro na súmula da partida, com a observação desqualificadora de que o fato não foi presenciado diretamente nem por ele nem por nenhum outro auxiliar da arbitragem.

Houve ainda uma entrevista emocionada de René Júnior, o qual disse que gostaria que os negros fossem avaliados por sua personalidade e não pela cor da pele e que não faria registro da agressão numa delegacia porque, afinal, era superior ao que acontecera. E encaminhou o atleta do Vitória que o agredira, o colombiano Santiago Tréllez, aos cuidados de Deus.

Conhecemos bem o silêncio que segue esses momentos. Mas antes do silêncio ocultar os acontecimentos há um preâmbulo, podemos dizer assim, que é uma forma autoritária de dizer que o que aconteceu não poderia ter acontecido e, se a vítima teima em dizer que aconteceu, a culpa será de todo modo, em algum momento do processo, atribuída àquele que ousar responsabilizar criminalmente alguém. Esse é o padrão disseminado entre nós.

Está sempre presente também a alegação de que o agressor tem amigos e/ou parentes negros. Santiago Tréllez estava sobrando nesse quesito indispensável. Ele disse aos jornalistas: "Eu não chamaria ele do que disseram que eu falei. Primeiro, porque eu sou preto. Meu pai é preto, rastafári. Na minha família, temos pretos. Eu amo ser preto".

Tréllez é mesmo um amor de pessoa. Quando todos já o supunham atravessando a linha tênue que separa brancos de não-pretos na Bahia, ele faz uma afirmação que joga por terra o que parecia amparado em sólidas especulações sociológicas. Eu me amo preto, filho de preto rasta - como ousas atribuir-me essa infâmia, essa vilania, meu caro Renê?

Então, o que aconteceu não poderia mesmo ter acontecido. Frente à realidade inquestionável dos pertencimentos e afetos alegados por Tréllez, o acontecido relatado por Renê Júnior vai se transformando em pura ficção. A versão de si mesmo apresentada por Tréllez à imprensa parece convencer a turma do deixa-pra-lá, uma vez que se faz acompanhar de foto na qual ele aparece abraçando o pai rasta.

Dirigentes de futebol, como se sabe, corporificam também elevados ideais morais. Precisamos ouvi-los com mais frequência. Deles emana sempre uma força puramente ética. Um dirigente do Bahia, Diego Cerri, confirmando nossas elevadas expectativas, teria dito o seguinte:

"Não pode acontecer esse tipo de coisa na vida, nem no futebol. Renê relatou que foi chamado de macaco por um jogador do Vitória, o Tréllez, e estamos conversando internamente para ver como agir. Coisas como essas são absurdas. Vamos conversar com o jogador e ver o que vamos fazer.”

O presidente em exercício do E. C. Vitória, Agenor Gordilho, deu também sua contribuição para o funcionamento do código implícito: "Estamos surpresos. Não estou sabendo de nada ainda. Quero falar com o jogador para saber o que aconteceu, mas vamos contornar tudo. Vamos dar cobertura ao atleta, mas tenho certeza que foi um grande mal-entendido. Tudo se contorna."

Coisas absurdas, diz o dicionário, são aquelas destituídas de sentido e de racionalidade. Como agir diante de uma monstruosidade desse tipo? Vamos fazer uma consulta interna, disse Diego Cerri, supreso ao se deparar, talvez, com uma experiência muito primitiva que envolvia macacos e a selva colombiana.

Agenor Gordilho, por sua vez, enuncia um princípio que deve orientar nossa conduta daqui para frente: “Tudo se contorna”. Inclusive aquelas coisas absurdas com as quais nos deparamos em nosso cotidiano, tipo isso que rolou no BA-VI. Nós, que enfrentamos perigos visíveis e invisíveis, não podemos desprezar essa preciosa orientação: tudo se contorna, principalmente quando lidamos não com coisas reais, mas com objetos do pensamento e da imaginação.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




O PASSADO SEMPRE CHEGA AO PRESENTE?

O bom artigo de Ana Flavia Pinto e Felipe Freitas sobre Luíza Bairros, divulgado na revista “Afro-Ásia” (nº 52, pp.215-276) traz no final uma preciosa relação de textos da autora divulgados em livros, revistas e jornais.

Há, certamente, mais alguns, dispersos por aí, a que se acrescentarão correspondências de que não se pode ainda avaliar a extensão, e a eventualidade de entrevistas, palestras e depoimentos gravados. Há muito tempo os livros se fazem acompanhar de registros sonoros e, no caso da enunciação vocal de Luíza, é indispensável isso.

Pela influência que Luíza Bairros teve e tem no movimento negro contemporâneo, sua trajetória e testemunho devem inspirar uma variedade de estudos críticos e pesquisas. Ana Flávia Pinto e Felipe Freitas alertam que cobriram apenas parte dessa trajetória nessa primeira contribuição da “Afro-Ásia” e pretendem dar prosseguimento ao trabalho.

Lélia González, de quem editei três artigos (no tablóide “Raça & Classe” , no “Jornal do MNU” e na revista “Humanidades”) ainda não teve a sorte de ter reunidos seus escritos, decorridos tantos anos de sua morte. Tudo virou raridade e as novas gerações a conhecem mais por ouvir dizer, o que é lamentável. Há dezenas de outros personagens, igualmente decisivos para a memória recente de movimento negro, na mesma situação de Lélia.

Já sabemos que será impossível reconstituir a verdade histórica sem o acesso a testemunhos indispensáveis. Não custa lembrar que os programas de história oral surgem em universidades americanas (Columbia, Yale) em 1948 e colhem depoimentos de sobreviventes do holocausto judeu. Ainda há tempo para impedirmos a dissolução do passado recente de esforços e lutas de movimento negro?

Abdias do Nascimento não se cansou de nos mostrar o caminho. Foram coisas preciosas que Abdias nos ensinou. Quando vamos compreender isso, afinal? Abdias se foi, mas deixou tudo arrumado. Tratou com seriedade seus esforços e os de sua geração. Livros, revistas, jornais, panfletos eleitorais, manifestos, discursos parlamentares, testemunhos de aspectos pessoais e biográficos, entrevistas, etc.

Contou com a qualidade de um grupo de assessores negros comprometidos, militantes e intelectuais, e contou (e conta ainda) com a dedicação de Elisa Larkin. Mas nada existiria sem a firmeza de atitude do próprio Abdias, consciente de que seus cuidados na preservação da memória, pessoal e coletiva, eram imprescindíveis e parte essencial de seu legado para as novas gerações. Obrigado, meu velho.

Ocorre-me a pergunta, desculpem-me, pois ela deve ser dirigida aos muitos desavisados entre nós: podemos prescindir do passado? Steve Biko disse, de modo a ser entendido por todos, que um povo sem passado é como um carro sem motor. Então refaço a pergunta que fiz: pretendemos ir a algum lugar? Se é verdade que pretendemos, será preciso ligar o motor.

Em condições políticas “normais”, disse Beatriz Sarlo, o passado sempre chega ao presente. Nossas condições de vida no Brasil não são normais, certo? O Estado, o governo, os meios de comunicação, escolas e partidos, e um número infinito de instituições dedicam-se a apagar ou distorcer os fatos reais e concretos nos quais se envolveu e se envolve a população negra. Tudo bem? Então, compreenda de uma vez por todas que, sem sua ativa participação, o passado não chegará até nós.

Voltemos a Luíza Bairros. Mas quero deixá-la falar. Posso ouvi-la dizendo o fragmento que cito abaixo. Afinal, ela vive através de nós. A minha lembrança é diferente de outras, muitas, e ela revive nesse diálogo que trava com todos nós, seus admiradores.

O texto transcrito a seguir foi retirado de um jornal eventual, editado pelo mandato do então vereador Juca Ferreira, em setembro de 1999 (p. 5), a propósito de relatório da Comissão Especial de Inquérito (CEI), que investigou o racismo no carnaval de Salvador. O relatório foi mutilado por setores governistas e não contou com os votos da oposição.

“A CEI cumpriu um papel importante, mesmo negando a existência do racismo, tão evidente no carnaval e no cotidiano da cidade. O que eu digo parece contraditório? Mas não é. O relatório adulterado, aprovado às escondidas pelos vereadores governistas, demonstra que o movimento negro tem estado com a razão ao apontar o papel das instituições na manutenção do racismo, e a conivência destas com setores empresariais. Para manter o povo negro fora das manifestações que ele próprio (re)criou vale tudo. Brancos travestidos de aliados participam de nossas organizações, dizem professar as religiões negras mas, ao mesmo tempo, conspiram contra nossos interesses, em favor dos senhores da casa grande em que se transformaram os blocos de trio. Negros, numa versão contemporânea dos feitores, negociam a história de seu próprio povo e fingem esquecer a constante discriminação que também sofrem, às vezes calados, às vezes sorridentes, e sempre curvados pelo peso da subserviência. Diante disto, resta ao movimento negro, e aos que a ele se aliam, sem demagogia, ir às ruas para realizar uma grande manifestação contra o racismo e, ao mesmo tempo, denunciar os blocos de trio racistas e seus porta-vozes na Câmara dos Vereadores.” Luiza Bairros. Iyalodê – Centro de Referência da Mulher Negra.

A voz indignada de Luíza Bairros nos alcança, é um apelo visceral que nos impulsiona para o combate. Trata-se de uma reflexão honesta sobre uma realidade dilacerante, que perdura no tempo. Nada que não possa ser apagado? Infelizmente, pode sim. Sem nossos esforços, imensos, gigantescos, essa é uma história que pode não ser contada aos negros amanhã.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




QUERO NASCER, QUERO VIVER

A ADNews é a agência responsável pelo anúncio de lançamento de modelo da marca Jeep, o Compass, que utilizou a melodia da canção “Preciso me encontrar”, de Candeia. A canção, interpretada por Cartola, aparece em disco da Marcus Pereira, salvo engano de 1976.

Gosto da canção (muita gente gosta) e utilizei um verso seu (“quero nascer, quero viver”) como epígrafe de um livro de poemas (Ubá), em 1999. O mundo em que se é morto-vivo, realidade extrema, não merece menção explícita na letra da canção, que projeta com ênfase o renascimento idealizado, romântico, com aurora, água corrente e canto de pássaros.

No anúncio, é óbvio, tudo se reduz a andar por aí de jeep compass. Segundo informa a agência, o “conceito” do anúncio é “Feito no Brasil de tudo o que somos e tudo o que podemos ser”, que evidentemente não quer dizer coisa alguma, é uma quase-idéia, parasitária de alguma coisa com sentido que leram algum dia em algum lugar.

Sobre a canção de Candeia, o release da ADNews diz que se trata de “ uma ode à busca do ser humano por significado”. Esse ser humano é todo mundo em qualquer tempo e lugar. Um plano de universalidade que esvazia o caráter histórico que me interessa. Sou muito limitado e considero essas generalizações claros sinais de uma disposição do intérprete de fugir do contexto. Que vida não significa exatamente viver, no contexto que produziu esse discurso?

Na mesma década de setenta, Martinho da Vila fez “Assim não, Zambi”, que conhecemos na voz de Clementina de Jesus. Vejamos os versos, pensando na recusa radical, no grito da alma que se faz ouvir na canção de Candeia ( “quero nascer, quero viver”). O que é latência e implícito em Candeia se escancara nos versos de Martinho da Vila:

“Quando eu morrer/vou bater lá na porta do céu/e vou falar pra São Pedro/que ninguém quer essa vida cruel./Eu não quero essa vida não Zambi/Ninguém quer essa vida assim não Zambi./Eu não quero as crianças roubando/a velinha esmolando uma xepa na feira/ Eu não quero esse medo estampado/na cara duns nego sem eira nem beira./Abre as cadeias/pros inocentes/dá liberdade pros homens de opinião./Quando um nego tá morto de fome/um outro não tem o que comer/Quando um nego tá num pau de arara/tem nego penando num outro sofrer/Eu não quero essa vida assim não Zambi/Ninguém quer essa vida assim não Zambi”.

É claro que vistas as coisas assim, a recusa tem uma dimensão coletiva (um nego e outro nego, idosos e crianças) e a busca do ser humano por significado tem necessariamente um caráter coletivo. A propósito, é bom lembrarmos que “não quero essa vida cruel”, significa alusão ao derramamento de sangue, consequência das agressões violentas que atingem a população negra. Cruel vem do latim “cruor, cruoris”, é sangue derramado.

Voltemos ao anúncio, onde aparece um negro boiando. Sim, ele não dirige o jeep, ele não acompanha quem dirige o jeep. Parece alguém que passa no momento de gravação do anúncio sem vinculação com os outros personagens, nem com a mercadoria anunciada.

O anúncio revela nesse fantasma perplexo suas inconsistências. Um tipo de voyeurismo fica reservado ao negro, na medida em que está dentro e fora do anúncio. É tocante sua solidão, seu desamparo. A dita homenagem a Cartola e Candeia, assim está no release, não sabe o que fazer com a representação do negro. Trata-se de uma forma nada sutil de descompromisso histórico.



Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo



O segredo do sucesso: bata no negro

A edição nº 17 do “Jornal do MNU”, de set./out./nov. de 1989, traz dois textos sobre passeata de adeptos da Igreja do Reino Universal (IURD) realizada em Salvador, no dia 14 de agosto de 1989. A passeata era uma manifestação política de grande hostilidade contra as religiões de matriz africana e tachava seus seguidores de “criminosos e infanticidas”.

O texto da página 2, “Guerra santa”, assinado por Lindinalva Rosa de Oliveira (Naná) é mais completo que o da página 9, “Salvador repudia ameaça nazista”, quase uma nota de rodapé não assinada.

Lindinalva de Oliveira rebateu as acusações da IURD, denunciou manipulações que enredavam a população negra da periferia e bairros populares e descreveu fato recente ocorrido no Cabula, que ela associou de pronto à passeata da IURD:

“No Cabula, em São Gonçalo, existe uma igreja desse ramo (IURD). E ela reuniu seus fiéis que, como se estivessem possessos, com baldes e vassouras, lavando a rua, gritavam: SAI, SATANÀS! Varriam, jogavam água no asfalto e quando chegaram em frente ao portão do ILÊ AXÉ OPÔ AFONJÁ empunharam as vassouras e entraram agredindo todos que ali se encontravam trabalhando, que tiveram que se defender da melhor forma. Imagine a que ferocidade essas forças mal direcionadas estão levando as pessoas. Essa gente, que não respeita nem a privacidade de seus vizinhos, invade domicílios numa comunidade onde existem creche e escola primária, faltando com o respeito devido à presença de crianças de tenra idade e senhoras de idade avançada, numa atitude antidemocrática.”

Como se pode ver, já era perceptível em 1989, há quase três décadas, com registros na imprensa negra, que a IURD constituía um desafio à sobrevivência das religiões de matriz africana. Ontem, no Rio de Janeiro, organizadores da “X Caminhada contra a Intolerância Religiosa”, Ivanir dos Santos à frente, ressaltaram que somente em 2016, no Rio, foram registrados 759 casos de intolerância.

Quando se tem o luxo de poder contar com o poder judiciário, coisa aparentemente proibida aos negros no Brasil, é possível alimentar a esperança de que agressões ao direito de crença possam vir a ser punidas de alguma forma. Mas a justiça no Brasil trabalha com critérios extremamente rigorosos que lhe permitem separar a humanidade da não-humanidade. Dignidade, liberdade, direitos e justiça diferenciam o humano do inumano.

Sendo as coisas assim, a receita é simples: bata no negro que o bolo cresce. Dos anos 80 para cá, assistimos ao grande empenho dos progressistas de esquerda para estimular a ação política dos neopentecostais. O fortalecimento das alianças políticas com forças “progressistas” garantiu-lhes a institucionalização e sempre mais acesso ao dinheiro público, amplas redes de comunicação e de diversificados empreendimentos comerciais.

O resultado está à vista de todos. Após alguns mergulhos purificadores no rio Jordão, entes santificados estimulam a invasão de terreiros de candomblé e umbanda para supliciar mães e pais de santo.

O mote inquisitorial é a coação absoluta e milicianos, narcotraficantes e pastores de bíblia e fuzil na mão caem matando. Tudo filmado, documentado, para melhor semear o terror.

Bacana a resistência, a caminhada, mas não há sinais de que alguma instância com poder para tal se disponha a tomar providências que possam atender os interesses do povo de santo diante da extrema brutalidade. Temos que reconhecer que o ódio que os neopentecostais expressam pela religiosidade com origem na África tem uma importante função política, porque quanto mais nos odeiam mais se dão bem nesse país maravilhoso.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




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