Reflexões

Dumas e os outros

Para confrontar valores estabelecidos e aumentar a adesão às teses antirracistas que defendemos, em algum momento todos nós recorremos, na argumentação, a uma espécie de mapeamento de vultos negros ilustres.

Já era assim no sec. XIX, como registra o jornal O Homem, feito por negros livres em Recife, em 1876: “Quem foram Alexandre Dumas pai e Alexandre Dumas filho, essas glórias literárias da França, senão homens de côr parda?”

O artigo de O Homem argumentava na defesa da unidade da espécie humana (“a pelle dos homens de raça caucásica (branca) e a dos homens de raça ethiope (preta) são a mesma pelle”), trazendo novidades atualíssimas ainda em 2015, como o comprovam em sua peregrinação ativistas e propagandistas dedicados à formação política e à agitação de ideias antirracistas por esse Brasil afora.

Funciona? A meu ver tem importância e pertinência sempre, diante da prolongada resistência ideológica, especialmente quando sabemos (e podemos) explorar a fundo a perplexidade do auditório (“Nossa, eu não sabia que ele/ela era negro/a...”). Afinal, que os negros não possam se destacar parece ser uma negativa fundamental nesse colosso construído pelo racismo.

Por isso mesmo, quero chamar a atenção dos leitores, porque talvez tenha passado despercebido de muitos, para o lançamento no início deste ano do livro “O Conde Negro”, de Tom Reiss (editora Objetiva, tradução de Cássio de Arantes Leite). Trata-se de uma biografia, premiada com o Pulitzer, de Thomas-Alexandre Dumas, nascido no Haiti e avô das ilustres figuras literárias francesas.

Há o Alexandre Dumas pai, o autor de “Os Três Mosqueteiros”, “O Conde de Monte Cristo” e mais de uma centena de obras, há o Alexandre Dumas filho, autor de “A dama das camélias”, romance e peça e de uma também vasta obra, e Tom Reiss apresenta-nos agora o Alexandre Dumas avô.

Quando em 2002 o presidente francês Jacques Chirac fez trasladar as cinzas de Alexandre Dumas (pai) para o Panteão em Paris, uma homenagem no bicentenário do autor, muitos jornais brasileiros suprimiram as alusões à cor do romancista que estavam no noticiário internacional (inclusive Roberto Pompeu de Toledo, na Veja), como se a cor do “escritor francês mais lido no mundo” não tivesse a mínima importância.

Embora fosse autor de meu conhecimento desde a infância mais remota (minha mãe, noveleira-mor, adorava “O conde de Monte Cristo”), eu só iria topar com a imagem de Alexandre Dumas, na foto famosa de Félix Nadar, em plena vida adulta.

Assim como Antonio Candido, que conheceu Mario de Andrade, casou com uma prima dele de evidentes traços negroides e nunca soube que Mario era negro, efeito talvez daquela seletiva desatenção que não nos permite observar o que não queremos observar, a foto de Nadar, embora de ampla circulação, é vista, de fato, por pouca gente.

Mas o livro de Tom Reiss é mesmo uma delícia, porque podemos mergulhar numa aventura extraordinária de força, inteligência e integridade de um general republicano negro que bateu de frente com o crudelíssimo general Bonaparte e, infelizmente, foi derrotado. O livro vale pelo que narra do general Dumas, apoiado em documentação inédita, e, muito especialmente, pelas preciosas informações sobre a articulação política negra no final do século XVIII na França e suas colônias, agitadas pela Revolução, com vasta bibliografia em francês e inglês.

A nova era de liberdade inaugurada pela Revolução Francesa foi impulsionada também pela ação política de ativistas negros, que forçam os limites da “universalidade” da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A biografia do general Dumas ilumina para nós a grande agitação política e militar de negros, homens e mulheres, livres e escravizados no período revolucionário e, de forma instrutiva, fortalece nossos esforços no presente.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo


“PAÍS DO RACISMO”



Ficha Técnica:
Texto: Ana Flauzina
Narração: Guilherme Pinto
Edição: Hugo Pachiella e Ana Flauzina





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