Reflexões


BARRAR FRAUDADORES DAS COTAS

Em Salvador, os movimentos negros se mobilizam para continuar pressionando o Tribunal de Justiça, que vem postergando decisão sobre mandado de segurança em benefício de fraudadores de edital de concurso de procuradores, com cotas de 30% para pretos e pardos.

Se todos podem ser negros, a legislação carece de sentido. E o resultado não previsto na legislação é que ela acabe beneficiando pessoas de fenótipo branco. Um tipo de miscigenado, que já havia feito a passagem da linha de cor, pois o seu fenótipo assim o permitia, quer a vaga destinada aos negros, é simples assim. A vigilância dos movimentos negros tem conduzido a resistência a essa grave distorção.

“Descubra suas origens genéticas com nossos exames exclusivos de ancestralidade por DNA”, esse é o anúncio de empresas a que tem recorrido os candidatos que assumem a identidade negra com o objetivo exclusivo de beneficiar-se da política de cotas. Outra leva de fraudadores fica nos extremos da subjetividade e afirma “sentir-se negra”.

Seus advogados, em consequência, defendem com unhas e dentes a autoidentificação como critério único de validação do pertencimento etnicorracial. Tudo se passaria como no pátio de um manicômio de anedota, onde o interno afirma ser Napoleão e ninguém ousa contestá-lo: “Napoleão, você já tomou seus remédios?”. Ou, numa ilha deserta, onde uma loura pode gritar “eu sou negra!” e o eco lhe responder “... sou negraaa...”.

Na vida real, autoidentificação e heteroidentificação estão imbricadas e se completam. Não são critérios de identificação dissociados ou uma mera questão terminológica. Eu me percebo nas relações que estabeleço com os outros. A identidade etnicorracial é histórica, cultural e política e os fraudadores e seus advogados querem apelar para o biológico e genético, ou para a subjetividade extremada.

A questão principal é que temos que impedir que o oportunismo de fraudadores acabe por anular o impacto que a política de cotas deveria ter na exclusão de pessoas atingidas pelo racismo e práticas de discriminação racial. Não devemos esquecer que a política de cotas é para promover uma representação, justa, equilibrada e equitativa da diversidade da sociedade brasileira (Durban).

A enormidade da reação à política de cotas nas universidades, todos se recordam dos embates da década passada, estão na base das “dificuldades” de implementação das cotas agora no serviço público, em importantes carreiras de Estado, com salário inicial de 23 mil reais, como é o caso da procuradoria do município de Salvador.

A enormidade da reação não pode sair nunca de nosso horizonte, certo? Seria um erro grave desconsiderar o fato essencial de que o racismo é parte do jogo. Por isso, o debate assume essa forma matreira de uma divergência sobre a legitimidade de critérios de identificação, quando o que deveríamos estar discutindo são as experiências concretas de exclusão vivenciadas por pessoas negras de fato (que até as pedra sabem reconhecer quem são) no mercado de trabalho.

Os desembargadores (três já se inclinaram pelos fraudadores!) não podem ficar indiferentes às consequências de seus atos ou imaginar que conseguirão evitar a responsabilidade pelos efeitos dessas ações na comunidade negra. Precisamos ampliar a mobilização.



Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo



SILÊNCIO ASSOMBROSO

Dentro de nosso contexto, não seria necessário escrever aqui sobre o fato de que as redes de TV não são as instituições mais adequadas para falar bem de uma percepção que não distinga as cores das pessoas.

No entanto, mal disfarçando o constrangimento de abordar conteúdo recalcado com rigor, o “Jornal Nacional” da rede Globo exibiu na noite de sexta-feira, 03 de março de 2017, reportagem de Alan Severiano, direto dos EUA, com o tema “No olhar de uma criança, um mundo sem distinção de cor”.

Tratava-se de registrar mais uma história de sucesso na internet, com uma infinidade de acessos: o relato de uma mãe norte-americana, branca, surpreendida com a atitude do filho (Jax), que queria cortar o cabelo bem baixinho para ficar parecido com seu amigo negro (Reddy).

“A idéia de Jax era fazer uma brincadeira com a professora. Ele ficaria tão parecido com o amigo que ela não saberia diferenciar um do outro.” A mãe “disse que era uma prova de que o ódio e o preconceito são coisas ensinadas”.

Embora as imagens do “mundo visto na TV”, com sua força e seu prestígio, sejam incompatíveis com as percepções de Jax e de Reddy, os apresentadores do jornal, William Bonner e Renata Vasconcellos, sorriem enternecidos diante da manifestação infantil de uma igualdade radical.

“Dos Estados Unidos chega a história de dois amigos. Dois meninos que alegraram o dia de milhões de pessoas no mundo todo.”

Enquanto o mundo transborda de ódio e intolerância, somos contemplados com a imagem de duas crianças, uma negra e a outra branca, se abraçando e sorrindo felizes. Subitamente, como uma mágica, critérios rigorosos de percepção, normas e valores tradicionais cedem espaço na socialização e os indivíduos, livres de toda pressão, confraternizam. Temos somente a surpresa manifesta da mãe branca, a reportagem não faz referência à mãe negra.

Seguem-se depoimentos de pais de crianças, inclusive o de uma brasileira que vive em Nova Iorque, e todos tecem elogios à convivência em escolas integradas. Numa escola infantil, que utiliza “livros que valorizam a diversidade”, a diretora “diz que as crianças são curiosas para entender o motivo das diferenças, mas que elas não nascem com o desejo de discriminar os outros”.

O tom predominante na reportagem é de grande entusiasmo e deslumbramento pela manifestação do que não é exatamente novo, a saber, a constatação de que o preconceito e seus efeitos são aprendidos em diferentes processos de educação, dentro e fora da escola.

A matéria do JN foi ambientada exclusivamente nos EUA e não provocou nenhuma consideração relacionada à realidade brasileira. Repórter e apresentadores pareciam divertir-se com um jogo gratuito, de grande abstração, sem aplicação prática em nossa realidade imediata, incluindo aí a programação e os funcionários das redes de TV.

A disposição predominante nos meios de comunicação é sempre tratar os temas relacionados ao racismo e à discriminação racial como temas estranhos à nossa realidade de convivência, definida a priori como harmoniosa e fraterna.

Não existe, portanto, uma dimensão da reportagem que aborde “o caso brasileiro”. A ideia de um mundo sem distinção de cor pode mesmo está sendo utilizada em proveito de seu contrário. Você quase não vê pessoas negras na programação? É porque não distinguimos as cores das pessoas, que são contratadas exclusivamente por seus méritos.

E fica lá a lacuna na reportagem que não traz nem uma remota invocação da realidade brasileira e silencia sobre os avanços obtidos em nossas escolas com as tentativas de implementação da Lei 10.639, agora também sob ameaça do projeto “escola sem partido”, na pauta do Congresso com chances reais de aprovação.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo



OPOR-SE À “VONTADE DE ATROPELAR”

A jornalista Cláudia Leite colheu depoimento de estudante negra, do Capão Redondo, periferia de São Paulo, que relatou seus esforços para ingressar e se manter na Politécnica da USP. “Aluna negra da periferia supera preconceitos para estudar na Poli” é título de reportagem da Folha de S. Paulo publicada na semana passada (02/02/2017).

O testemunho de Larissa Mendes, estudante do primeiro ano de engenharia civil é, em primeiro lugar, uma rara oportunidade para o jornalismo que se faz no Brasil tomar contato com um conjunto de experiências e vivências que ignora ou finge ignorar. Através dessas pequenas brechas, um mundo pouco conhecido, o que é extremamente sintomático, emerge.

No entanto, reportagens sobre iniciativa negra bem sucedida em universidade que não aceita cotas para negros e veiculada por jornais que estiveram sempre na linha de frente do combate contra as cotas são, obviamente, para serem recebidas com alguma cautela, porque o pano de fundo é a exaltação do mérito individual e a negação de políticas públicas de inclusão.

Podemos imaginar a carga imensa de esforços desenvolvidos, pela estudante e familiares, e seu depoimento mostra como o resultado do vestibular não ofereceu solução imediata para problemas concretos de sobrevivência, nem alterou nada na ideologia que os inferioriza.

Mas todos nós conhecemos como uma realidade adversa se impõe de modo a minar resistências. Por isso devemos louvar os desempenhos de Larissa Mendes e de outros estudantes, os quais, embora conscientes das dificuldades a sua volta, não abriram mão de sonhos e aspirações.

Numa narrativa sucinta, Larissa detalha com precisão cada estágio de um processo pelo qual os negros são expulsos de determinadas carreiras de prestígio e as pretensões universais das “bolhas” criadas pelos privilégios do segmento branco.

“Pensei muito em desistir”, durante o pré-vestibular, e “Penso em desistir todo dia”, cursando a faculdade. As barreiras, os medos, as inseguranças, a terapia. Mas Larissa está na luta, tem esperanças, convicções e ambições. O título da reportagem diz que ela “superou” o preconceito, mas seu depoimento mostra sua briga cotidiana contra o racismo, a opressão racial e o sexismo.

Larissa já ouviu um monte, vocês sabem. Uma frase ouvida por Larissa, de imediato, inspira medo e fica martelando com insistência em nossa cabeça, após a leitura da reportagem: "Toda vez que vejo esses pretos com dread [dreadlocks], tenho vontade de atropelar.” Como Larissa conseguirá desviar de si essa hostilidade e adotar uma postura de aluna concentrada, exclusivamente, em conteúdos escolares?

Da resistência dela e de seus contemporâneos, acadêmicos ou não, dependerá, não duvidemos, a viabilidade de nosso futuro.

Essa “vontade de atropelar” é uma das reações mais espontâneas do racismo brasileiro, dito cordial. Os negros, por serem negros, são vítimas sempre dessa “vontade de atropelar”. O “imaginário etnocida” aí se manifesta em sua plenitude e devemos buscar prevenir, por todos os meios, suas consequências práticas.

Mas corremos sempre o risco de ser eliminados. O agressor está ao volante, não se esqueça disso. Relações sociais são relações de força e ele está motorizado e você é o pedestre inoportuno. Seria uma grande ilusão, desmentida todos os dias, imaginar que a vitória é certa. Não é.

Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo



Sobre nossa adesão, complexa e contraditória

“Numerosos oradores se fizeram ouvir, em sua totalidade pessoas importantes na vida política, econômica e social do país. No meio deles, porém, surgiu inesperadamente um preto que (...) fez um longo discurso.”

Extraio esse fragmento do livro “João Alfredo, o Estadista da Abolição”, de Manuel Correia de Andrade, p. 276. Nos parágrafos abaixo examino alguns aspectos de uma ideologia que diferenciava e diferencia pessoas (brancas) das não-pessoas (negras) e a forte disposição a se adaptar ao marasmo político vigente.

No fragmento, os oradores são pessoas de grande importância, logo a cor não precisa ser expressa. Nenhum leitor deixará, no entanto, de compreender que as pessoas são brancas. No contexto brasileiro, desde sempre, não é necessário citar a cor de pessoas importantes. Aliás, nossas circunstâncias impõem mesmo que ela nunca seja citada.

Aquele cuja pele é preta e foi designado por sua cor não é uma pessoa importante. Nem política, nem econômica, nem socialmente importante. Sua presença deve expressar testemunhos de gratidão pela ação atribuída ao estadista morto. João Alfredo Corrêa de Andrade (1835-1919) encaminhou o projeto da Lei Áurea, como todos sabem.

O “preto” teve espaço para uma fala de longa duração, na condição de testemunha da grandeza do outro. Ocorre que não é uma simples metonímia, quando você se refere a alguém pela cor de sua pele e essa pele é preta. O que acontece? Você designa um conjunto de seres inferiores, e inferiores pela razão que você acaba de assinalar. Os humanos identificados por esse marcador (pele preta) não o são de fato. Aqueles designados pela cor da pele não pertencem à categoria dos humanos. E no meio de oradores importantes, brancos, surge alguém que, condicionado por sua natureza inferior, não fala evidentemente para confrontar ou impor qualquer tipo de ruptura.

Nosso orador inopinado encarna certamente a adesão. Ele representa a figura do liberto agradecido aos “estadistas”, é uma construção extraordinária. Um homem preto enxerido que discursava longamente. O orador que registra a passagem do conselheiro João Alfredo mais parece uma ocorrência puramente retórica. Uma projeção da gratidão que compunha a representação oficial das antigas comemorações do 13 de Maio.

No texto, é uma presença inesperada, mas de cuja enunciação não se pode prescindir. Ele era o “porém”, mas sem o “porém”, e a situação de comunicação criada, certas propriedades do finado não poderiam ser realçadas como deveriam. Indispensável. Se não estivesse mesmo estado ali, deveria ter sido criado.

O aspecto simbólico do personagem o torna representante de “objetos” não dotados de ação própria. É o representante simbólico do grupo das não-pessoas. A motivação e a ação que se devem destacar no processo de emancipação precisam estar associadas a figuras como a do conselheiro morto.

Para acreditarmos que podemos mudar alguma coisa, temos que saber neutralizar os efeitos de símbolos e vinculações simbólicas aceitas como verdade histórica, as quais convertem os negros em não-pessoas, inofensivas e passivas, profundamente agradecidas.

A efetividade dessa representação ideológica já era duramente contrastada na República Velha, quando foi grande a agitação política dos negros em todo o país. Contrariamente a essa desvalorização e exclusão, pessoas negras enxeridas se debateram, espernearam, se organizaram e combateram no período imediatamente posterior à Abolição.

Vamos citar algumas emblemáticas: o advogado Manuel da Motta Monteiro Lopes, também pernambucano, se opôs, na onda de uma grande mobilização negra que cruzou o país, às barreiras que bloqueavam o acesso ao mundo da política. Se fez, na marra, o primeiro deputado negro no período dito republicano; Isaías Caminha, narrador do livro de estreia de Lima Barreto, que refutou na primeira pessoa teses eugenistas e racistas e mostrou as entranhas do jornalismo da capital; e João Cândido e seus camaradas falaram grosso contra a chibata e penas cruéis.

Mais de um século depois, quando consideramos a épica resistência negra na chamada República Velha, em contraste com os dias atuais, o sentimento que prevalece entre nos é o da perda de orientação política. Diante dos fatos e dados disponíveis, nossas escolhas parecem equivocadas e, se não ignoramos os fatos, somos incapazes de perceber o que se oculta atrás das aparências. De qualquer forma, para fins práticos, ainda que se leve em conta momentos de revolta e indignação, aderimos essencialmente aos valores de uma sociedade que nos desconstitui como pessoas. Marchamos em silêncio, num “férvido preito”, ao lado do esquife de estadistas mortos.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




O Inoportuno, sempre ele

Falar de racismo, e de seu enfrentamento, é sempre inoportuno. Nunca é a hora nem o lugar, no caso brasileiro. Uma enviada especial de grande jornal paulista, no entanto, sente-se à vontade em Chicago para falar de assassinatos de negros, segregação racial, racismo, criminalidade, desemprego, escolas públicas precárias, população carcerária, desumanização, ausência do Estado, desesperança.

Cláudia Trevisan, enviada especial de “O Estado de S. Paulo” a Chicago, ouviu e registrou depoimento de uma fonte negra, Henry Clark, de 69 anos, e “Em sua opinião, o governo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos não alterou as relações raciais no país”. E Henry Clark acrescentou: “Nós nunca fomos vistos como americanos. Nós somos apenas residentes no país, não somos cidadãos.” (OESP, edição de 15.01.2017, p. A10.)

Você fica sabendo também que há uma relação entre a presidência da República e o padrão vigente de relações raciais. Ou seja, políticas públicas podem alterar relações raciais. Veja quanto coisa você aprende numa reportagem do Estadão sobre o tema racial, quando o foco da reportagem é os Estados Unidos!

Para o jornalismo que se pratica no Brasil é fundamental se desfazer desse viés utilizado pela enviada especial. Na reportagem do Estadão, o interesse obviamente não são os negros de Chicago, nas “o negro” de Chicago, Barack Obama, cuja passagem pela presidência deve ser devidamente espinafrada.

Mas não só o jornalismo. Se você assiste a um debate sobre a situação carcerária na TV (chacinas, degolas e tudo o mais), testemunha um enorme esforço, uma dificuldade muito peculiar de tratar a questão racial, subjacente todo o tempo ao tema em discussão. Um tipo de conhecimento que parece essencial à realidade em debate, mas que forças ocultas impedem sua abordagem.

Em um programa de TV da GloboNews, Ayres Britto, ex-ministro do STF, disse que as práticas desumanas estão enraizadas entre nós: “Somos persistentes nessas práticas de violência, que estão enraizadas na sociedade brasileira”. Outro participante, o advogado Oscar Vilhena, referiu-se “à desigualdade profunda e persistente e a valores hierarquizadores”.

Práticas referidas estruturalmente viraram uma estranha moda entre nós. O racismo e o sexismo são suas principais vítimas. Supõe-se assim, creio eu, evitar questionamentos e acusações de superficialidades. Mas, como vimos, podem-se banalizar aparentes incursões à estrutura profunda, que acabam tendo pouca ou nenhuma serventia.

“Casa grande e senzala” - quem aguenta mais essa antítese para explicar os males da estrutura social do presente (aqui e agora) nos textos jornalísticos? O jornalismo mais crítico na conjuntura brasileira está imbuído de uma certeza: o escravismo é a causa profunda de nossos males.

Voltemos ao enfrentamento do racismo, ou melhor, a sua ausência nos debates. Presume-se, ao silenciar sobre racismo, que não se possa ir além da constatação de que a maioria dos encarcerados são pretos e pardos.

Tomada como causa relevante, e não como resíduo do escravismo, a hierarquização do humano pela cor da pele, recorrente entre nós, propiciaria uma perspectiva que poderia ajudar a enquadrar melhor nossa “tradição de criminalização e encarceramento”, “as práticas desumanizadoras”, os “valores hierarquizadores”, que ficaram boiando no debate da Globonews. Ayres Britto chegou a dizer, diante das persistências que apontava, que nosso DNA não parece bom.

É esse tipo determinado de resistência, que envolve diferentes posições no espectro político, acerca da introdução no debate do racismo como uma variável capaz de explicar adequadamente dimensões essenciais, que precisamos superar. Sem trazer à tona a opressão racial e sem confrontar práticas discriminatórias, não avançaremos.


Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo




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