Reflexes


QUERO NASCER, QUERO VIVER

A ADNews a agncia responsvel pelo anncio de lanamento de modelo da marca Jeep, o Compass, que utilizou a melodia da cano Preciso me encontrar, de Candeia. A cano, interpretada por Cartola, aparece em disco da Marcus Pereira, salvo engano de 1976.

Gosto da cano (muita gente gosta) e utilizei um verso seu (quero nascer, quero viver) como epgrafe de um livro de poemas (Ub), em 1999. O mundo em que se morto-vivo, realidade extrema, no merece meno explcita na letra da cano, que projeta com nfase o renascimento idealizado, romntico, com aurora, gua corrente e canto de pssaros.

No anncio, bvio, tudo se reduz a andar por a de jeep compass. Segundo informa a agncia, o conceito do anncio Feito no Brasil de tudo o que somos e tudo o que podemos ser, que evidentemente no quer dizer coisa alguma, uma quase-idia, parasitria de alguma coisa com sentido que leram algum dia em algum lugar.

Sobre a cano de Candeia, o release da ADNews diz que se trata de uma ode busca do ser humano por significado. Esse ser humano todo mundo em qualquer tempo e lugar. Um plano de universalidade que esvazia o carter histrico que me interessa. Sou muito limitado e considero essas generalizaes claros sinais de uma disposio do intrprete de fugir do contexto. Que vida no significa exatamente viver, no contexto que produziu esse discurso?

Na mesma dcada de setenta, Martinho da Vila fez Assim no, Zambi, que conhecemos na voz de Clementina de Jesus. Vejamos os versos, pensando na recusa radical, no grito da alma que se faz ouvir na cano de Candeia ( quero nascer, quero viver). O que latncia e implcito em Candeia se escancara nos versos de Martinho da Vila:

Quando eu morrer/vou bater l na porta do cu/e vou falar pra So Pedro/que ningum quer essa vida cruel./Eu no quero essa vida no Zambi/Ningum quer essa vida assim no Zambi./Eu no quero as crianas roubando/a velinha esmolando uma xepa na feira/ Eu no quero esse medo estampado/na cara duns nego sem eira nem beira./Abre as cadeias/pros inocentes/d liberdade pros homens de opinio./Quando um nego t morto de fome/um outro no tem o que comer/Quando um nego t num pau de arara/tem nego penando num outro sofrer/Eu no quero essa vida assim no Zambi/Ningum quer essa vida assim no Zambi.

claro que vistas as coisas assim, a recusa tem uma dimenso coletiva (um nego e outro nego, idosos e crianas) e a busca do ser humano por significado tem necessariamente um carter coletivo. A propsito, bom lembrarmos que no quero essa vida cruel, significa aluso ao derramamento de sangue, consequncia das agresses violentas que atingem a populao negra. Cruel vem do latim cruor, cruoris, sangue derramado.

Voltemos ao anncio, onde aparece um negro boiando. Sim, ele no dirige o jeep, ele no acompanha quem dirige o jeep. Parece algum que passa no momento de gravao do anncio sem vinculao com os outros personagens, nem com a mercadoria anunciada.

O anncio revela nesse fantasma perplexo suas inconsistncias. Um tipo de voyeurismo fica reservado ao negro, na medida em que est dentro e fora do anncio. tocante sua solido, seu desamparo. A dita homenagem a Cartola e Candeia, assim est no release, no sabe o que fazer com a representao do negro. Trata-se de uma forma nada sutil de descompromisso histrico.



Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educao pela Universidade de So Paulo


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